• Leila Krüger

Artigo de Leila Krüger para o jornal HoraH.


A solidão sempre foi uma grande questão para a humanidade. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos – é o que dizem, por mais que estejamos rodeados de pessoas. E o que é a solidão?


Disse Clarice, a Lispector, exímia ourives de palavras e sentidos: “E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão”. A solidão é ser único, por mais que se tente parecer, interna ou externamente, com outra pessoa. É sentir lá dentro, onde ninguém chega, por mais que queira.


No fundo, somos sós. No final, dependemos apenas de nós. Somos do mundo em que vivemos – dentro das nossas cabeças.


Filósofos, no entanto, distinguem solidão de solitude. A primeira é composta por um vazio, uma ausência de contato externo, o ato desagradável de estar só, o isolamento; a segunda, por sua vez, tem um significado oposto, refere-se à paz, ao encontro consentido com si mesmo, à busca da plenitude interior, sem a necessidade de estar acompanhado de outras pessoas. Essa solitude pode nos remeter, por exemplo, aos monges que se guardam nos mosteiros, ou aos peregrinos, que andam sozinhos, ou melhor, solitudinos, em estado de reflexão, transcendência. desfrutando a própria companhia e as paisagens.


Solidão é a dor de estar sozinho, solitude é a glória, ou a virtude de estar sozinho.


Queremos aqui falar em especial da solidão, esse mal que tanto afeta nossos tempos. E que agora, com a quarentena imposta pela pandemia de Covid-19, tem se expandido nas pessoas dentro de suas casas, seus castelos, em frente a seus espelhos, sempre presentes.


A solidão já era característica de nossa era pós-moderna, de pessoas conectadas globalmente pela Internet, nunca antes tão livres para se expressar e ser – ainda que haja muito preconceito e obstáculos. O coronavírus apenas encontrou uma poltrona confortável dentro de casas e pessoas repletas de vazios, antes distraída e brevemente preenchidos.


Mas há casos em que os isolados encontram a solitude, que é a sabedoria na ausência alheia, o saborear a própria companhia, ponderar, aproveitar o tempo para adquirir conhecimentos, criar, avaliar, reinventar-se. A solitude, com certeza, é mais rara, mais difícil de ser sentida que a solidão. Aquela é o preenchimento interno, esta, o oco íntimo. Nem sempre esse oco tem explicação: pode-se estar muito bem acompanhado de pessoas e coisas, e sentir-se só.


Eis que estamos sendo obrigados a ficar em nossas casas, evitar sair, conviver com o medo da contaminação de um vírus que já ataca mais jovens que idosos, e cuja letalidade aumenta a cada dia no mundo. O vírus, em sua própria solidão, precisa se ligar às células humanas, para lá se reproduzir, a elas se mesclar.


Nós, como a maioria dos animais, somos seres sociais, porém algumas pessoas optam pela solidão como autopunição, ou por medo, ou distúrbios psicológicos. Precisamos uns dos outros. Até hormônios da felicidade são produzidos com o contato físico amigável, com a presença benéfica do outro. Nem sempre ela é benéfica, é verdade.


E agora estão dizendo “fique em casa”. Um estudo apontou que cerca de 30% das pessoas em isolamento social estão desenvolvendo depressão, ansiedade e sintomas pós-traumáticos. Volta e meia a TV pergunta o que alguém sonha fazer quando puder sair de sua casa com liberdade, sem máscara, libertar-se da solidão. Olhos giram, sorrisos aparecem.


A solidão aumentou. A solidão dói. A solidão pode levar à solitude, se houver esforço, paciência e consciëncia. A solidão também pode literalmente matar, ser autodestrutiva: os índices de suicídio, depressão e ansiedade do século XXI são alarmantes. Engraçado, se temos as redes sociais, os programas de conversa instantâneos, a companhia do celular, os likes, os mil e um “amigos” virtuais, a plateia a quem fazemos a performance apenas das melhores partes da nossa vida.


Por fim, estar acompanhado por alguém não significa não estar sozinho. É o velho cenário daquela pessoa que anda, como um buraco negro, entre a multidão: não é tocada, não toca, tudo é distante, ninguém imagina o que se passa em seu interior – pode até sorrir, enquanto seu peito desfalece. Ou a solidão a dois: uma dupla de buracos negros em galáxias distantes.


Então, como você está passando o isolamento? Ao que parece, em pleno pico de contaminação, não vamos nos livrar tão fácil, ou tão plenamente dele. Podemos escolher entre solidão e solitude? Podemos realmente aprender a cultivar essa solitude, que se trata de um “estar bem com si mesmo”?


Nesta quarentena, em especial, esperamos que muitos de nós encontrem a solitude: a convivência pacífica e harmônica com si mesmo. Uma convivência que produz, imagina, descansa, completa. Que faz pessoas melhores, uma sociedade melhor.


Ame-se primeiro, cuide-se primeiro, suporte-se, aceite-se, mude se for necessário.


Não se contente em acostumar-se à solidão como forma de vida ou disfarçá-la: relacionamentos rasos, ruins, abusivos, drogas ilícitas, bebidas alcoólicas em excesso, eventos contínuos incubam a solidão de muitos. Apertam a cabeça dela para debaixo d’água, mas ela sempre volta, e olha bem nos olhos de quem a tentou sufocar.


Nunca estivemos tão sós, antes e durante esta quarentena: “Estamos sós, e nenhum de nós sabe exatamente onde vai parar”, canta Humberto Gessinger.


O que eu queria era sair de madrugada em meio à chuva, sem guarda-chuva, e gritar como Clarice Lispector gritou: “Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.” E o brilho do sol! A vida são opostos que se completam e nos formam.


Nesta quarentena, busquemos a solitude, voltemos mais fortes, diferentes, não por um dia ou uma semana, mas no coração, aquela mudança verdadeira.


Importante é manter relacionamentos saudáveis – antes só do que mal acompanhado. Partilhar, trocar, ligar-se a pessoas que – se possível – nos façam bem. Aguentar as que nos fazem mal, se for o caso. Somos o reflexo daqueles com quem convivemos, e da falta dos que não temos. Vamos escolher as companhias certas, na medida do possível.


E descobrir quem somos, desenvolvendo-nos, conhecendo-nos, amando-nos, cuidando-nos, assumindo o papel de autores da nossa história. Invista em você. Não abandone jamais a única companhia que estará lá em todos os momentos da sua vida, até o fim: você mesmo. Gnōthi seauton: “Conhece-te a ti mesmo” – um antigo segredo, celebrizado por Sócrates, praticado desde a Antiguidade.

  • Leila Krüger

Artigo publicado no Jornal HoraH horahdigital.com


Desde a Gripe Espanhola, ou Gripe de 1918, no pós-guerra, não enfrentávamos uma pandemia de tamanha devastação global. O mais grave é que, segundo relatos, os Estados Unidos esconderam a doença, prevalente em sua população (recebeu o nome de “Espanhola” porque esse país anunciou a moléstia publicamente), para que seu exército não parecesse enfraquecido, em um mundo instável após a I Guerra Mundial.


Quando divulgada, a doença já estava espalhada, especialmente na Europa: as consequências, dizem, são cerca de 100 milhões de mortos. Tratava-se de uma versão mais agressiva do vírus influenza, que provoca a H1N1, entre outras gripes.


Quer dizer, há mais de um século não vivenciamos nada parecido: houve epidemias de Gripe do Frango, Gripe Suína, H1N1, HIV, até mesmo da tuberculose nos séculos XVIII e XIX, notadamente. Nada tão mundialmente devastador como o coronavírus – não em termos de perdas de vidas, mas em pânico populacional e econômico.


Nesta onda de isolamento social – nem sempre cumprido como deveria ser, ainda mais às portas do inverno no Brasil, que trará uma gama de doenças respiratórias oportunistas – as pessoas estão adoecendo: não apenas de “corona”, ou Sars covid-19, mas de doenças psíquicas e físicas, a maioria delas advindas exatamente desse isolamento social, desse momento de instabilidade emocional, da distância afetiva – física, ao menos – e da crise existencial.


Fomos obrigados a parar.


O vírus acabou com a louca correria dos nossos dias, de repente. Essa Modernidade Líquida que não para de nos fazer “jorrar”, que exige multitarefas, trabalho exaustivo, grande exposição pessoal, fugacidade, rapidez. Pois, agora, fomos obrigados a parar. E a parar, ainda, de pensar apenas em dinheiro, em trabalho, em coisas que importam, mas que, por hora, estamos total ou parcialmente impedidos de conseguir.


É hora de pensar no corpore sano in mens sana, corpo são em mente sã, ao contrário da máxima antiga. São outros tempos. Os problemas psiquiátricos se multiplicam, muitas vezes deixamos de ter tempo para nós mesmos e para aqueles a quem amamos, e para admirar o céu, os pássaros, ler desenhos nas nuvens: não passa de um desperdício de tempo. Só as redes sociais é que importam, se não for documentado, registrado, exposto, não foi vivido.


Bem, queremos apresentar algumas dicas para manter nossa mente – que aprendeu a ser hiperativa nos tempos atuais – o mais sã possível na pandemia, não apenas externa, mas interna: cada um reage a seu modo, é mais resiliente ou menos resiliente, mas podemos adotar algumas medidas dentro de nossos “castelos”, casas, para aumentar nossa qualidade de vida e, consequentemente, nossa mente sã que favorece um corpo são, e um corpo são que auxilia a ter uma mente sã.


Aconselhamos você a praticar exercícios físicos, localizados ou aeróbicos: você encontra vários vídeos no YouTube e artigos em blogs sobre o assunto: estipule um tempo diário.

Outra coisa: alimentação, ela é uma das maiores responsáveis por nossa saúde: cuide para não descarregar a solidão na comida, ou na bebida. Escolha bem seus alimentos (dica: chocolate com alto teor de cacau é ótimo para matar a vontade de comer doces, e ainda contém antioxidantes, eles fazem bem à saúde). Ah! Sempre que puder, peça delivery, ou seja, entrega em casa, para não ter que se deslocar a locais de aglomeração comerciais, em especial se for idoso ou tiver problemas de saúde.


O que mais? Manter uma rotina é importante, para alimentação e outras atividades, organiza nosso tempo e nossa mente.


São tempos de ansiedade, de andar na corda bamba. Você sabia que em São Paulo se noticia que o número de infartos, nos últimos dias, aumentou oito vezes? Então, cuide da sua saúde mental. Exercícios ajudam, como dissemos, e a alimentação, mas, se for necessário, recorra a um atendimento médico especializado, mesmo que por telefone. Prefira alimentos que ajudem a sintetizar a serotonina, hormônio da felicidade, como os ricos em triptofano, aminoácidos encontrados na banana, na sardinha e no salmão, por exemplo.


E como fazer para lidar com idosos ou crianças? Pode ser estressante. Exerça sua paciência. Procure dicas de como entreter seus pequenos, de como dar assistência a seus pais ou avós, eles talvez nunca tenham precisado tanto de você. Um dia você precisou muito deles.

Por fim, o fator solar: tome sol! Estimula a absorção de vitamina D, que fortalece os ossos e o sistema imunológico. Mas, atenção: nada de exposição exagerada, sem filtro solar, em horários de sol forte.


No mais, mantenha-se informado sobre como ter uma boa qualidade de vida, não apenas durante o isolamento, mas em qualquer circunstância. Desenvolva atividades criativas, que lhe deem prazer (a mídia tem procurado entreter o público na TV e nas redes sociais), procure controlar sua agressividade, conecte-se com outras pessoas a distância, compreenda o momento difícil que estamos atravessando, compreenda-se. Momentos difíceis sempre ensinam quem tem disposição para aprender.


Xô, coronavírus! Mas você, pequeno invasor asiático, não irá embora sem antes nos ajudar a ser pessoas melhores, mais humanas e, mesmo afastadas, mais próximas.

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  • Leila Krüger

A 2a. ed. do meu livro "A Queda da Bastilha", editora Madrepérola, vai ser adotado como objeto de estudo nas disciplinas de Redação e História, por alunos da 8a série. Livros foram doados para a instituição, com o intuito de despertar nos alunos a conexão entre os sentimentos e as visões pessoais e um fato histórico, como A Queda da Bastilha.

Muito obrigada aos envolvidos! Bela atitude de incentivo à leitura no Brasil.




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